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MÚSICA

Gal Costa e a consciência do tempo

O que o disco Recanto tem a ensinar sobre a música e a cultura atuais

Por Pedro Silva

Uma das coisas mais interessantes – e mais bonitas – da música brasileira recente é termos acompanhado a maturidade artística de quem inaugurou entre nós uma ideia de juventude e liberdade. Não estão a salvo de críticas rancorosas, mas é mais que evidente que os caminhos seguidos pelos quatro baianos “Doces Bárbaros” Caetano-Gil-Bethânia-Gal é coisa singular no nosso contexto musical.

Pode-se dizer que Gilberto Gil veio antes dos outros três avançando no peso intelectual do disco duplo Quanta (1997) e depois na reverência a Bob Marley de Kaya N’Gan Daya (2002), acompanhado de uma banda absurdamente boa. No mesmo ano, Maria Bethânia começou nova fase desde que se dedicou a lançar dos seus melhores discos pelo selo Biscoito Fino. Mas foi Caetano Veloso, com sua verborragia e cabotinismo que fixou no tempo uma aura de ruptura e novidade com seu Cê ao vivo (2007), miscelânea de seus vários momentos utópicos e musicais. Já Gal Costa havia se aventurado pela Trama desenvolvendo um disco (Hoje, lançado em 2005) que, se ainda não chegava a ser sinônimo dessa nova aura, apontava seu desejo de novos caminhos. Mas foi Recanto, lançado no fim de 2011, o disco que surgiu como símbolo maior desse momento em que se unem duas pontas da nossa história musical.

 

                Marcelo Celuzo. Sesc Vila Mariana, 04/01/2013

 

Muito já se falou sobre esse segundo encontro entre Gal e Caetano (o primeiro foi o disco Domingo, de 1967) e talvez não seja preciso retomar todos os detalhes de sua produção aqui. O que é importante notar é como Recanto se encaixa num momento muito específico da cultura brasileira. Um momento em que os anos 60 e 70 ressurgem como esfinge a ser decifrada – estão aí a Comissão da Verdade e todos os fantasmas da ditadura, que cada dia recebe mais interpretações cinematográficas (e, quem diria, até novelísticas!). Um momento em que nossa música de certa forma estacionava em termos de gênero e produção musical, em que as gravadoras se viam perdidas diante do fim do consumo de mídias que anteriormente lhes rendiam milhões. Um momento, sobretudo, em que os expoentes da nossa “música jovem e moderna” estão na casa dos 60 ou 70 anos. (Deve ser uma conjunção astral-numerológica essa ressignificação da geração dos anos 60 e 70 justamente aos 60 e 70 anos...)

Velhice? A idade que significou pra muita gente o momento da aposentadoria é agora o ápice da produtividade e inventividade. E é isso que esses bárbaros estão nos mostrando: que o lance é ser “tudo que você consegue ser – ou nada” (pra citar o septuagenário Milton Nascimento, companheiro de travessia) e que o que nos resta “é não estar vencido” (pra fazer menção ao Ney Matogrosso também setentão). Afinal, quem atualmente estaria fazendo música pra pensar – e não só glorificar – o sexo e o dinheiro, dois monstros que “fazem-nos ser/ seres de base igual”?

 

                Marcelo Celuzo. Sesc Vila Mariana, 04/01/2013

 

Pois é justamente aí que se encaixa Recanto. É um disco difícil pra quem se acostumou com uns caminhos oficiais da MPB institucionalizada, mas muito fácil (e dignificante) a quem entendeu aquela mensagem dos baianos lá do começo (lembrem-se da canção do Gil: “O seu amor: ame-o e deixe-o ir aonde quiser”). E Recanto vai aonde quer: contra a superficialidade que impera, ele fere expondo uma dor ontológica diante do mundo – tudo dói, tudo é singular.

“Neguinho” é o eletro que espantou alguns e atraiu outros. A letra é seca e dura como a realidade de uma época em que a ética se reduz a hedonismo (“Nem bem nem mal: prazer”) e ingenuidade política (“Neguinho quer justiça e harmonia para se possível todo mundo, mas a neurose de neguinho vem e estraga tudo”). Mas não se redime ninguém, afinal, “Neguinho que eu falo é nós”. (Sintomático que Gal, nos shows de Recanto, cante em seguida a faixa “O Amor”, como a oferecer um pouco de esperança, pois, “talvez, quem sabe, um dia... o século trinta vencerá o coração destroçado pelas mesquinharias” ).

Em duas faixas, Gal e Caetano questionam ainda pseudovanguardismos e preconceitos musicais. “Autotune Autoerótico” é lacônica no recado: “Não o autotune não basta pra fazer o canto andar/ pelos caminhos que levam à grande beleza”. Crítica à paralisação e “oficialização” da música eletrônica (pois se até o rei Roberto está fazendo versão house pasteurizada de “Fera Ferida”). Na mesma linha, “Miami maculelê”, ao usar a batida do funk carioca aponta para uma transformação radical que ocorreu no Brasil nas formas de produzir e se consumir música, mas que sempre foi considerada menor e rechaçada pela crítica. Quando Gal insere a batida minimal eletrônica, a brincadeira com o autotune, a batida do funk carioca, está apontando, em sua maturidade, que nem sempre os caminhos da música – tanto da beleza quanto da diversão – tem sido considerados com olhos (e ouvidos!) livres.

Na faixa “Madre Deus” ecoa o poema “Memória” de Carlos Drummond de Andrade: “E as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”. Como ficará esse disco, tangível e sensível em sua temporalidade. E é a consciência do tempo a grande dignidade de Recanto, que na faixa inicial, nos ensina: “Coisas sagradas permanecem. Nem o Demo as pode abalar. Espírito é o que enfim resulta de corpo, alma, feitos cantar”.

 

               Marcelo Celuzo. Sesc Vila Mariana, 03/01/2013

 

 

* * * Em tempo: o show do disco Recanto, eleito pelo O Globo o melhor show de 2012, deve continuar 2013 adentro. Gal faz quatro apresentações com ingressos esgotados nesse começo de ano, no Sesc Vila Mariana. É aguardar os próximos.





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